Sustentabilidade

De acordo com a AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) a sustentabilidade é baseada em três aspectos: ambiental, econômico e social, que precisam estar em equilíbrio. Como cada um destes abrange diferentes variáveis para diferentes situações, não existem cálculos absolutos ou receitas prontas para se tratar de sustentabilidade. Cada projeto é consequência de decisões específicas, únicas e originais. Alguns passos recomendados nesse caminho são:

  • Qualidade ambiental interna e externa
  • Redução do consumo de energia
  • Redução de resíduos
  • Redução do consumo de água
  • Uso de condições naturais
  • Reciclagem, reutilização e redução de resíduos sólidos
  • Inovação

Abaixo, está exposta uma tabela retirada do Código para Residências Sustentáveis que foi criada  pelo governo britânico e sinaliza determinados parâmetros, que podem ser trabalhados para alcançar uma propriedade idealmente sustentável:

Categoria Parâmetro Peso

1. Energia/CO2

1.1 Emissões 10
1.2 Estrutura da residência  9
1.3 Iluminação interna  2
1.4 Espaço de secagem 1
1.5 Eletrodomésticos 2
1.6 Iluminação externa 2
1.7 Tecnologias de Energia Zero Carbono 2
1.8 Depósito de bicicletas 2
1.9 Escritório 1

2. Água

2.1 Consumo interno 5
2.2 Consumo externo 1

3. Materiais

3.1 Impacto ambiental 15
3.2 Elementos básicos 6
3.3 Elementos finais 3

4. Água de superfície

4.1 Manejo do escoamento 2
4.2 Risco de enchente 2

5. Resíduos

5.1 Disposição 4
5.2 Constr. de Manejo 3
5.3 Compostagem 1

6. Poluição

6.1 Isolantes GEE 1
6.2 Emissões NOX 3

7. Saúde e bem-estar

7.1 Iluminação natural 3
7.2 Acústica 4
7.3 Espaço privativo 1
7.4 Valorização 4

8. Gerenciamento

8.1 Guia doméstico 3
8.2 Esquemas arquitetônicos 2
8.3 Impactos do canteiro de obras 2
8.4 Segurança 2

9. Ecologia

9.1 Valor ecológico 1
9.2 Evolução ambiental 1
9.3 Proteção de parâmetros ambientais 1
9.4 Mudança no valor ecológico 4
9.5 Ocupação predial 2

A maioria desses itens pode ser reavaliada para qualquer casa, prédio, condomínio, village ou comércio, em qualquer situação ou contexto. Eles possuem pesos quantitativamente e qualitativamente determinados e uma nota final, que classifica as propriedades de acordo com seu grau de sustentabilidade. Para mais informações e custos de implantação os guias abaixo podem ser seguidos:

Code for Sustainable Homes: Technical Guide November 2010

Code for Sustainable Homes: A Cost Review 

Uma versão similar brasileira pode ser encontrada em (Casa Sustentável) e o guia para pontuação (LEED), (Construindo um Futuro Sustentável).

O objetivo da sessão que segue é apenas o de expor e esclarecer algumas modificações (que são muitas vezes simples e de fácil implantação) e despertar a curiosidade das pessoas quanto à sustentabilidade em propriedades. Todo o trabalho feito deve ser supervisionado por profissionais especializados e atuantes na área.

1.  Energia/CO2

Energia é um dos pontos mais importantes dessa lista. Envolve 9 diferentes parâmetros e um peso de 36.4% do total estipulado.

1.1 Emissões

Nesse item, diferente dos outros, existe um limite mínimo determinado pelo governo e adaptações são permitidas para alcançar níveis mais altos de sustentabilidade. O objetivo aqui é o de limitar as emissões de CO2 oriundas da habitação e serviços relacionados à mesma e alinhá-las com a legislação vigente de futuro direcionamento das regulamentações. Os pontos de modificação estão ligados com sistemas de aquecimento de ar e água, aparelhos de ar condicionado, iluminação, eletrodomésticos e cozinha. Nesse sentido, é extremamente recomendado a implantação de sistemas de aquecimento de ar e água por energia solar, de painéis fotovoltaicos ou até mesmo mini-centrais térmicas de biomassa.

1.2 Estrutura da residência

Hoje em dia, existem diversos tipos de materiais que podem ser utilizados na construção da residência, alguns com características muito peculiares. O objetivo nesse item é utilizar o material mais adequado e mais energeticamente eficiente para a região onde a habitação será construída. Troca térmica é o principal ponto a ser avaliado. Existem materiais isolantes, por exemplo, que reduzem a absorção de calor durante o dia, favorecendo a climatização interna.

1.3 Iluminação interna

Os créditos aqui são fornecidos baseando-se no percentual de aparelhos de iluminação interna que são energeticamente eficientes. Mais de 40% equivale a 1 crédito, mais de 75% equivale a 2.

1.4 Espaço de secagem

Prover um espaço de secagem ideal ou meios que reduzam o consumo de energia para secagem das roupas.

1.5 Eletrodomésticos

O que é recomendado é a aquisição de eletrodomésticos energeticamente eficientes, com selos de qualidade e referência. Para geladeiras e freezers que possuam selo A+, 1 crédito é fornecido. Outro crédito é fornecido caso as máquinas de lavar e lava louças tenham selo A ou aparelhos de secagem tenham selo B.

1.6 Iluminação externa

Nesse item, 1 crédito é fornecido caso toda a iluminação externa seja provida por acessórios de maior eficiência energética e mais 1 crédito caso os sistemas de segurança sejam devidamente automatizados e eficientes.

1.7 Tecnologias de Energia Zero Carbono (EZC)

Aqui o ideal é explorar as diferentes tecnologias que sejam livre de emissões. Nesse quesito, a principal determinação é em termos de suprimento de energia. Sendo assim, 1 crédito é fornecido caso a tecnologia utilizada leve a uma redução de até 10% e 2 créditos caso leve a 15% ou mais.

1.8 Depósito de bicicletas

O objetivo é o de incentivar um maior uso de bicicletas como meio de transporte, criando um espaço adequado e seguro para armazená-las. Até 2 créditos podem ser adquiridos, dependendo da qualidade desse espaço.

1.9 Escritório

Uma sala extra, com espaço e acessórios adequados, pode dar suporte ao trabalho em casa. Essa ação poderia evitar a necessidade de locomoção para o trabalho, em situações específicas. Pode ser fornecido 1 crédito para um escritório construído dentro de casa.

2.  Água

O objetivo é reduzir ao máximo o consumo de água potável em todas as fontes, incluindo provenientes de poços ou aquíferos. São recomendados acessórios de redução, eletrodomésticos eficientes e sistemas de reciclagem de água. Os créditos são fornecidos a partir do consumo atingido, sendo esse valor expresso em litros/dia/pessoa. Para 120 L/d/p ou menos – 1 crédito, para 110 L/d/p – 2 créditos, para 105 L/d/p – 3 créditos, para 90 L/d/p – 4 créditos e para 80 L/d/p  - 5 créditos.

2.1 Consumo interno

Algumas medidas  básicas que podem ser adotadas são:

  • Utilizar descargas que necessitem menor quantidade de água
  • Redutores de fluxo para banho, pias e lavatórios
  • Reciclagem de água usada para utilização em descargas ou máquinas de lavar
  • Reutilização de água da chuva para banheiros, máquinas ou irrigação
  • Eletrodomésticos mais eficientes

Medidas mais complexas envolvem até a automação dos sistemas, que apesar de aumentarem um pouco a quantidade de energia elétrica consumida, diminuem bastante o consumo de água.

2.1 Consumo externo

A maioria das medidas adotadas para consumo interno são também medidas de consumo externo, a depender da forma como sejam feitas. Aqui, os pontos estão mais direcionados à irrigação externa, métodos de coleta da água da chuva e disposição dos reservatórios.

3.  Materiais

Determinar os materiais de construção e reforma com o menor impacto ambiental possível, baseando-se no ciclo de vida do mesmo. São avaliados os telhados, paredes externas e internas, pisos e janelas. Alguns materiais “eco projetados”, podem ser facilmente encontrados em lojas de construção, por exemplo:

Areia reciclada, produzida a partir de entulho, que pode ser utilizada em argamassa, revestimento ou reboco

Cimento CPIII, que tem menor impacto ambiental, substituindo o clínquer por escórias de altos-fornos, com o mesmo desempenho do cimento convencional

Formas para moldagem de estrutura de concreto armado utilizando madeira certificada, plástico reciclado ou aço

Pavimentação permeável, que possibilita não só a infiltração da água, podendo permitir o cultivo de grama, mas também favorece a formação de poços subterrâneos

Instalações elétricas feitas com cabos fabricados sem metais pesados ou material reciclado

Tijolos de solo-cimento com utilização da terra do local da obra

Instalações hidrosanitárias e de tratamento individuais utilizando PEAD, PP e PVC

Cerâmicas de baixo impacto, azulejos hidráulicos de material reciclado e pastilhas de fibras naturais (coco e bambu)

Pisos emborrachados produzidos a partir de pneus usados

Paredes construídas à seco

Madeira de reflorestamento ou sintética (plástico e fibras vegetais)

Telhas fabricadas a partir de materiais reciclados

Vernizes e tina à base de água

Telhados e fachadas com cobertura vegetal

Coletores de água pluvial, caixas verticais e cisternas em PVC

Estações de tratamento de esgoto residenciais compactas (mais informações abaixo).

3.1 Impacto ambiental

As informações referentes aos materiais e a seus respectivos impactos ambientais podem ser encontradas em alguns guias e mais orientações podem ser dadas por engenheiros civis, ambientais ou arquitetos, já que envolvem mais complexidade do que nos itens anteriores. Um exemplo de guia pode ser encontrado em Guia Verde.

3.2 Elementos básicos

Promover as especificações de materiais de origem ambientalmente favoráveis.  Até 6 créditos podem ser fornecidos a depender do percentual de material utilizado em cada área de construção da residência. A assessoria de profissionais especializados é indispensável nesse ponto.

3.3 Elementos finais

Esse item segue os mesmos procedimentos do anterior, mas está mais direcionado para os elementos de acabamento da construção.

4.  Água de superfície

O projeto de um sistema eficiente de escoamento de água pode reduzir e atrasar o escorregamento de água da chuva, protegendo cursos de água e canais e melhorando a disposição do esgoto. Os Sistemas Sustentáveis de Drenagem indicam algumas técnicas, disponíveis em guias e, baseadas nessas, os créditos são distribuídos. Abaixo, alguns exemplos:

Uso de trincheiras

Pavimentação porosa ou permeável

Escoamento do telhado direcionado para o jardim (ao invés do uso de tubulações)

Telhados verdes

4.1 Manejo de escoamento

Aqui, 2 créditos são fornecidos se os Sistemas Sustentáveis de Drenagem forem utilizados para otimizar a qualidade da água da chuva escoada ou para proteger a qualidade da mesma.

4.2 Risco de enchente

Nesse item, 2 créditos estão disponíveis para construções que forem projetadas com o objetivo de diminuir o risco de enchentes, caso essa diminuição seja comprovada em toda área. 1 crédito é fornecido caso a construção não esteja em região de mínimo risco de enchente, mas a mesma tenha seu piso e rotas de acesso acrescidas de no mínimo 600 mm acima do nível provável de enchente.

5.  Resíduos

Aqui são indicadas formas de lidar com os resíduos das residências. São determinados os tamanhos dos espaços interno e externo de disposição, a frequência ideal de coleta, os cuidados que devem ser tomados na separação e na disposição e, a depender da situação,  são recomendados sistemas automatizados.

5.1 Disposição

Prover adequados espaços interno e externo para a disposição de resíduos recicláveis e não-recicláveis. São oferecidos 2 créditos para um espaço interno específico para o tratamento dos resíduos, com no mínimo 3 lixeiras (15 litros cada uma) e um mínimo total de 60 litros. 4 créditos para prover esse local de um esquema de coleta realizado por autoridades locais ou adequar uma área externa com capacidade de depósito.

5.2 Construções de manejo

Nesse ponto, 1 crédito é ofertado, caso a elaboração de uma estratégia local de gestão de resíduos contenha procedimentos e obrigações que estejam de acordo com as práticas ideais definidas por grupos de coleta, com a intenção de reduzir o lixo gerado no sítio. Mais 1 crédito é disponível se o lixo for separado e não for destinado a aterros.

5.3 Compostagem

Se a propriedade dispuser de instalações individuais de compostagem caseira, 1 crédito pode ser adquirido.

6.  Poluição

O objetivo nesse item é o de cobrir aspectos relacionados aos gases do efeito estufa (GEE), com a distribuição de até 4 créditos.

6.1 Isolantes de GEE

Promover a redução de emissões de gases associados ao efeito estufa com o desenvolvimento, instalação, uso e disposição de materiais isolantes térmicos e acústicos. 1 crédito se todos os materiais em elementos-chaves da propriedade só emitirem uma determinada quantidade de GEE durante a produção e implantação.

6.2 Emissões NOX

Promover a redução de emissões NOX na atmosfera. 3 créditos podem ser fornecidos de acordo com determinados padrões de emissões de NOX dos aparelhos de aquecimento de ar e água.

7.  Saúde e bem-estar

Os parâmetros aqui são bastante variados e estão relacionados com o bem-estar diário das pessoas dentro das propriedades e em como atingi-lo.

7.1 Iluminação natural

Prover um bom aproveitamento da luz do dia, melhorando a qualidade de vida e reduzindo as necessidades de consumo energético. 1 crédito se a cozinha atingir uma iluminação natural com média mínima de 2% (cálculo disponível nos guias disponíveis acima). 1 crédito, caso as salas de estar e jantar atinjam uma média de 1.5%. 1 crédito se 80% dos ambientes da casa receberem iluminação diretamente do meio externo.

7.2 Acústica

Utilizar isolamentos acústicos de qualidade, que reduzam a probabilidade de reclamações de barulho pelos vizinhos. Melhora de 3dB – 1 crédito. 5dB – 3 créditos. 8dB – 4 créditos.

7.3 Espaço privativo

Melhorar a qualidade da construção a partir da criação de um espaço externo (como uma varanda, por exemplo) parcialmente privativo. 1 crédito pode ser fornecido, caso o mesmo seja provido de espaço para as pessoas sentarem, com lugar reservado para cadeirantes e seja acessível apenas aos moradores da residência.

7.4 Valorização

O objetivo desse item é a construção e reforma da residência pensando em futuras ocupações. Sendo assim, a mesma deve ser readaptável e acessível, para que possa ser facilmente alterada de acordo com as necessidades de novos moradores. Existem restrições quanto ao estacionamento para veículos, paredes dos banheiros, altura dos pisos, disposição de escadas e até mesmo espaço para implantação de elevadores, em alguns caso. Informações mais específicas podem ser encontradas nos guias já mencionados.

8.  Gerenciamento

Esse item cobre problemas relacionados ao monitoramento e redução de impactos consequentes da construção do sítio, dispondo informações que permitam os ocupantes da propriedade entender o seu funcionamento e fazer o melhor uso de suas instalações.

8.1 Guia doméstico

A disponibilidade de um manual sobre o uso da residência pode fornecer até 2 créditos, se estiver de acordo com as restrições recomendadas no Guia Técnico. Mais 1 crédito caso o manual tenha informações sobre as redondezas da residência (bairro, segurança, hospitais, escolas).

8.2 Esquemas arquitetônicos

Promover a gestão social e ambiental dos canteiros de obra considerados. Aqui são cobertos aspectos como não perturbar a vizinhança, ser ambientalmente alerta, ser respeitoso, prover a segurança adequada, manter a limpeza do espaço, ser responsável etc. 1 crédito é oferecido para o comprometimento com as melhores práticas, cobertas por algum sistema de certificação. 2 créditos para ir além do comprometimento, implantando estratégias mais significantes.

8.3 Impactos do canteiro de obras

Mitigar de forma ideal os impactos ambientais, gerenciando de forma adequada os canteiros de obra. 1 crédito para a implementação de procedimentos que cubram pelo menos dois itens do Guia Técnico (uso de energia ou água, poeira, emissões etc). 2 créditos caso sejam cobertos 4 itens ou mais.

8.4 Segurança

Propiciar instalações que permitam que as pessoas se sintam seguras e protegidas. Evitar que desordem e perigo ou medo prejudiquem a qualidade de vida das pessoas e da comunidade. Existem profissionais especializados e guias técnicos disponíveis que são preparados para atender as residências nesse sentido. Caso a propriedade seja plenamente coberta pelas restrições necessárias, 2 créditos podem ser obtidos.

9.  Ecologia

Promover o desenvolvimento de construções em terrenos que já possuem um valor ecológico limitado e desencorajar a construção em regiões de grande valor ecológico. Atingir um valor máximo de créditos no quesito ecológico pode ser bastante relativo, mas é indispensável que o proprietário adote uma posição proativa no sentido de atingir uma quantidade de créditos que possam garantir proteção ambiental e desenvolvimento ecológico.

9.1 Valor ecológico

1 crédito é fornecido se o local da construção for situado, comprovadamente, em região de baixo valor ecológico.

9.2 Evolução ambiental

1 crédito é fornecido pela contratação de um ecologista qualificado e adoção de todas as recomendações chaves feitas pelo mesmo e 30% de recomendações extras.

9.3 Proteção de parâmetros ambientais

Promover a proteção das características ambientais previamente existentes de danos substanciais durante a limpeza do canteiro de obras e a finalização das construções. Essas características envolvem a preservação de árvores, arbustos, riachos, pântanos, campos etc. 1 crédito, caso isso seja feito de forma adequada e eficiente.

9.4 Mudança no valor ecológico

Minimizar reduções e promover otimizações no valor ecológico. O valor ecológico do sítio é medido antes e depois do desenvolvimento do local e os créditos são fornecidos baseados na modificação total de espécies por hectare. Caso haja uma mínima modificação negativa – 1 crédito, caso seja neutra – 2 créditos, caso haja uma mínima melhora – 3 créditos e no caso de uma grande melhora – 4 créditos.

9.5 Ocupação predial

Promover a ocupação mais eficiente possível, garantindo que o terreno e o material utilizados sejam otimizados durante o desenvolvimento da obra. Esse item está relacionado com as fundações da propriedade e com a área tomada pela mesma. 1 ou 2 créditos podem ser fornecidos baseados na relação da área interna líquida com a área de terreno líquida (cálculos no Guia Técnico).